A maior transferência de riqueza da história já começou — e o Brasil está no centro dela
- Gustavo Loureiro

- Jan 15
- 3 min read
Nos próximos 20 anos, o mundo assistirá ao maior movimento financeiro já registrado: trilhões de dólares migrando de uma geração para outra, redesenhando economias, redefinindo comportamentos e provocando mudanças profundas na forma como famílias e países lidam com o patrimônio. Estimativas globais apontam que entre US$ 83 e US$ 124 trilhões serão transferidos até meados de 2048, segundo estudos de UBS e Cerulli Associates, consolidando um fenômeno que já está em curso em diferentes regiões do planeta.
No Brasil, essa mudança tem um peso ainda maior. O país, que abriga hoje cerca de 433 mil milionários em dólares, figura entre os três maiores mercados globais em volume absoluto de riqueza a ser transferida, somando aproximadamente US$ 9 trilhões nas próximas décadas. Essa cifra impressionante não reflete apenas o acúmulo de patrimônio de longo prazo, mas revela uma transformação silenciosa: uma nova geografia da riqueza, acompanhada de novos valores, novas prioridades e novos riscos.
Um cenário global em transformação
Nos Estados Unidos, o país mais rico do mundo, a previsão é que US$ 68 trilhões mudem de mãos até 2045, parte de um total global estimado entre US$ 83 e US$ 84 trilhões. No Reino Unido, a projeção gira em torno de £ 5,5 trilhões, enquanto na Austrália o montante pode chegar a AU$ 3,5 trilhões.
O fator que mais chama atenção é que esse movimento não acontece de forma homogênea. Nos Estados Unidos, por exemplo, mulheres devem receber cerca de 70% dos US$ 124 trilhões estimados até 2048, impulsionadas por maior longevidade e por ondas sucessivas de transferências primeiro entre cônjuges e depois entre gerações.
Outro componente significativo é a expansão dos Everyday Millionaires (EMILLIs) — indivíduos com patrimônio entre US$ 1 milhão e US$ 5 milhões, cuja presença cresce rapidamente em economias dinâmicas como Brasil, EUA e partes da Europa. No Brasil, esse grupo já quadruplicou desde o ano 2000, refletindo uma nova geração de empresários e profissionais liberais com maior acesso a mercados globais e soluções de investimento mais sofisticadas.
O Brasil entra na era da sucessão
Se o mundo vive um processo de realocação histórica de riqueza, o Brasil vive um processo igualmente profundo — mas mais silencioso. Além das projeções de US$ 9 trilhões em transição, estudos mostram que o país tem características particulares que amplificam a complexidade desse movimento: elevada concentração de renda, forte presença de ativos imobiliários (cerca de 70% dos legados), além de desafios estruturais como a baixa cultura de planejamento sucessório.
A “passagem de bastão” — expressão usada por analistas para definir o momento em que famílias estruturam a transferência de seu patrimônio — já está em curso. E ela vem acompanhada por transformações no perfil de quem herda e de quem gere esses recursos. Mulheres, novamente, têm papel central, assim como as gerações X e Millennial, que aceleram a adoção de investimentos alternativos, internacionalização e novas exigências de transparência e governança.
Ao mesmo tempo, o Brasil enfrenta um fenômeno relevante: a migração de riqueza. A previsão de saída de 1.200 milionários em 2025, equivalente a US$ 8,4 bilhões, reforça a urgência de estruturas profissionais capazes de proteger e organizar o patrimônio em diferentes jurisdições.
A hora da gestão patrimonial estratégica
No meio desse cenário global de complexidades, surge um ponto essencial — e aqui faço uma observação que considero tanto técnica quanto experiencial: nenhuma família atravessa processos de sucessão e preservação de legado com eficiência sem uma estrutura profissional de gestão patrimonial.
Modelos como os family offices, cada vez mais presentes no Brasil, cumprem um papel que vai muito além do investimento:
integram governança, educação financeira e sucessão;
conciliam valores familiares com decisões estratégicas;
organizam ativos dispersos (imobiliários, empresariais, financeiros);
mitigam riscos jurídicos, fiscais e emocionais que emergem na transição entre gerações.
Como mostram diferentes estudos, um family office atua como guardião do propósito, da organização e da longevidade da riqueza, garantindo que ela não só atravesse gerações, mas continue a fazer sentido para elas.
Conclusão: a oportunidade — e o desafio — de um novo ciclo
O Brasil está diante de um momento raro: uma mudança estrutural na dinâmica da riqueza, acompanhada de mudanças igualmente profundas nos valores e nas prioridades das famílias de alta renda. A maior transferência de patrimônio da história não é apenas um dado estatístico — é um divisor de águas.
Para quem herda, é responsabilidade. Para quem transmite, é continuidade.



