O ambicioso plano da CERPA para ganhar o mercado nacional
- Redação

- 3 days ago
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Às margens da Baía do Guajará, a Cerpa surgiu em 1966, tornando-se rapidamente um marco na paisagem cultural e econômica do Pará.
Por décadas, não foi apenas uma marca de cerveja, mas sim um símbolo local. Com uma fábrica própria, garrafas retornáveis transportadas por barcos e caminhões, a Cerpa conquistou notável representatividade, alcançando 65% do mercado paraense no início dos anos 2000.
Agora, quase seis décadas depois, a empresa está determinada a mudar sua abordagem.
De um produto que os brasileiros descobriam ao visitar o Pará, o objetivo atual é tornar a Cerpa a marca símbolo do estado que se expande e conquista todo o país.
O plano ambicioso é dobrar seu faturamento até 2030, passando de R$ 300 milhões para R$ 600 milhões, além de vislumbrar um potencial de R$ 1 bilhão em vendas no preço ao varejo.
Segundo Jorge Kowalski, CEO da Cerpa desde 2024, a empresa está em meio a esse momento transformador. Com passagens pela Coca-Cola e Heineken, ele foi convidado pela família que administra o negócio para reestruturar as operações e impulsionar uma expansão nacional.
A estratégia une dois principais focos: diversificar os produtos oferecidos — priorizando margens mais altas sobre volumes mais baratos — e aproveitar a enorme rede logística da Coca-Cola para alcançar até 30.000 novos pontos de venda fora da região Norte. Em um momento em que a COP30 coloca o Pará no cenário internacional, a Cerpa quer se projetar como um exemplo de sucesso empresarial do estado para o restante do Brasil.
A história da Cerpa
Fundada em 1966 pelo imigrante alemão Konrad Karl Seibel, que viu no Pará o potencial para produzir cerveja nos trópicos com base em um recurso essencial e abundante: a água. Assim, estabeleceu a fábrica nas margens da Baía do Guajará.
Nas décadas que se seguiram, a Cerpa consolidou-se como uma das maiores cervejarias regionais, virando referência no estado e alcançando 65% do mercado local em seu auge. Antes mesmo do boom das cervejas artesanais, também ganhou espaço em outras regiões do Brasil, especialmente no Sudeste, conquistando consumidores interessados em alternativas às grandes marcas tradicionais.
No entanto, nem tudo foram flores. Problemas de gestão, conflitos de sucessão e questões tributárias levaram a empresa a enfrentar uma crise significativa. A retomada começou nos últimos anos e ganhou força em 2024, quando os acionistas decidiram promover uma ampla reestruturação das operações.
De acordo com Kowalski, o objetivo dessa reorganização foi corrigir uma série de problemas históricos que limitavam o potencial de crescimento da marca.
Hoje, a Cerpa ainda tem como base principal sua fábrica em Belém, mas conta com um escritório em coworking em São Paulo e uma estrutura comercial e de marketing revisada e aprimorada. A adoção da tecnologia no gerenciamento remoto já fazia parte da empresa há tempos, mas agora ganhou reforço com uma nova equipe comercial e uma agência dedicada às ações de marketing.
Com uma capacidade produtiva de 1 milhão de hectolitros anuais, a fábrica passou por um importante processo de modernização em 2015. Atualmente, ela se prepara para uma nova etapa de melhorias.
Conforme Kowalski aponta, essa atualização pretende expandir ainda mais a capacidade da fábrica e introduzir novas categorias de produtos e embalagens ao portfólio da Cerpa.
A nova estratégia de distribuição da Cerpa marca um momento de transformação em sua trajetória, que até então tinha raízes firmemente plantadas no Norte do Brasil, especialmente nos estados do Pará, Amazonas e Maranhão. A proposta agora é expandir sua atuação em duas frentes distintas.
No Nordeste, o plano contempla parcerias regionais e um fortalecimento da operação própria. Até 2026, a meta é mais que quadruplicar os pontos de venda, passando de 825 para cerca de 3.500, com entrada em estados como Piauí, Rio Grande do Norte, Paraíba, Sergipe e Bahia. Nos mercados onde já possui presença — Ceará, Pernambuco e Alagoas —, o objetivo é consolidar sua posição.
Já para o Sul, Sudeste e Centro-Oeste, a abordagem será mais estratégica, aproveitando a ampla rede de distribuição do sistema Coca-Cola. Ao invés de estabelecer uma infraestrutura própria robusta nessas regiões, a marca apostou na parceria com empresas do sistema Coca-Cola, que possuem capilaridade e eficiência logística. Isso proporciona escala rápida e um aumento substancial na base de clientes varejistas.
Além de revisar suas operações logísticas, a Cerpa está adaptando seu portfólio de acordo com cada região. No norte do país, produtos como Tijuca mantêm forte presença nas embalagens retornáveis, enquanto fora dessa área o foco recai sobre a linha Cerpa Export, posicionada como uma opção premium. O portfólio diversificado inclui ainda marcas como Crolant, inspirada na tradição cervejeira alemã, e opções econômicas como Drafity e Nevada.
Apesar da ambição de expansão em pontos de venda e volume produzido — com previsão de aumentar em 555% o volume nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste entre 2025 e 2026 — o principal objetivo não é simplesmente crescer em quantidade. A estratégia visa agregar valor ao produto, priorizando margens maiores em vez de elevar a receita por meio de produtos mais baratos. Em um cenário de retração do consumo per capita de cerveja no Brasil, a aposta recai sobre melhorar o mix de produtos e atender consumidores que buscam qualidade e diferenciação.
Como parte disso, novos investimentos em modernização industrial têm sido realizados. A empresa incorporou tecnologias para aumentar eficiência e minimizar impactos ambientais, como sistemas que capturam CO₂ produzido na fermentação e o utilizam na gaseificação das bebidas. Além disso, aproveita sua capacidade produtiva instalada para explorar novas categorias, como a água enlatada lançada durante a COP30, destacada por seu vínculo narrativo com a Amazônia.
A logística ganha respaldo com distribuidores do sistema Coca-Cola como Femsa, Andina, Brasal e Sorocaba Refrescos, além de previsão para integração com Uberlândia Refrescos em 2026. Essa parceria promete agregar cerca de 30 mil novos pontos de venda à cobertura atual.
Em termos industriais, há um movimento para reduzir gradualmente a fabricação para terceiros e priorizar as próprias marcas. Com essa estratégia robusta e adaptações dinâmicas à realidade do mercado brasileiro, o plano é dobrar o tamanho da marca até 2030. A proposta não se limita ao volume ou à presença nacional — é uma tentativa ambiciosa de provar que tradições regionais genuínas podem ganhar espaço e relevância no cenário competitivo do país.



