Vencendo o vendaval de 2026: Por que algumas empresas vão acelerar enquanto outras param
- Rafael Silveira

- 6 days ago
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O famoso e muito esperado relatório Top Risks 2026 da Eurasia Group desenha um cenário que, para o gestor médio, beira o apocalipse: uma "Revolução Política nos EUA" (Risco 1) e o avanço do "Capitalismo de Estado Americano" (Risco 6). No entanto, se você está sentado no Board de uma empresa brasileira ou liderando uma operação de Venture Capital, sua obrigação não é lamentar a volatilidade, mas sim operacionalizar a ambidestria.
O erro fatal de 90% das lideranças diante de crises globais é o imobilismo defensivo. O que os dados nos mostram é que períodos de reconfiguração de ordens mundiais são, historicamente, as maiores janelas de oportunidade para quem domina o Dilema do Inovador de Clayton Christensen. Enquanto os gigantes globais estão distraídos com conflitos internos e protecionismo, as empresas brasileiras podem – e devem – usar a "Transformação Dual" para capturar eficiência no curto prazo e novos mercados no longo.
A Transformação A: Blindando o Core contra a Deflação e a Incerteza
O Risco 7 da Eurasia aponta para a "Armadilha da Deflação na China", o que impacta diretamente o preço das commodities e o custo de insumos globais. Aqui entra a Transformação A de Clark Gilbert: o reposicionamento do seu negócio atual para torná-lo resiliente. Não se trata apenas de corte de custos, mas de usar a tecnologia para ganhar margem onde antes havia desperdício.
No ciclismo de alto rendimento, quando o vento sopra frontal a 40 km/h, você não pedala mais forte de forma aleatória; você reduz a sua área de arrasto e ajusta a cadência para manter a potência mínima necessária. Nas empresas, essa "aerodinâmica" vem da eficiência operacional via IA e dados. Se o seu custo de aquisição de cliente (CAC) ou sua eficiência produtiva não melhorarem em 2026 através da automação, você não terá fôlego financeiro para financiar o futuro. A inovação sustentada, nesse contexto, é a sua ferramenta de sobrevivência imediata.
A Transformação B: O Brasil como o "Safe Haven" do Nearshoring
Onde está a oportunidade real? O relatório cita o "Zombie USMCA" (Risco 9) e o esfacelamento das cadeias de suprimento tradicionais. É aqui que aplicamos a Transformação B: a criação de um novo motor de crescimento. Enquanto os EUA se fecham em uma doutrina protecionista, o Brasil surge como um player de "amizade estratégica" (friend-shoring).
As empresas brasileiras que entenderem que seu "Job to be Done" mudou de "fornecedor local" para "parceiro global resiliente" capturarão o capital que está fugindo da Ásia. Para isso, é preciso desapego emocional. Muitos fundadores e executivos brasileiros estão apegados a modelos de negócio de 2010. O dado é implacável: o fluxo de capital estrangeiro busca previsibilidade operacional e ESG real, não apenas discurso. A inovação disruptiva aqui não é criar uma tecnologia espacial, mas sim redesenhar sua governança e supply chain para atender a padrões internacionais de urgência.
O "Power Move" da Ambidestria
A chave para vencer 2026 está no que chamo de Ponte de Capacidades. Você deve usar os ativos do seu negócio tradicional (caixa, escala, dados) para impulsionar a nova rota de crescimento, sem deixar que a burocracia do "velho" mate o "novo".
É exatamente como analisar um treino no Strava após uma sessão de intervalados: os números não mentem. Se a sua Transformação B não está apresentando métricas de tração real, você está apenas queimando o oxigênio que a sua Transformação A gerou. O Board ou a alta gestão precisa atuar como o treinador que olha o desempenho em tempo real e decide se é hora de mudar a estratégia de ataque ou se manter no pelotão para poupar energia.
Fechamento: O Risco é a sua Inércia
O cenário geopolítico de 2026 não é um obstáculo, é um filtro. Ele vai separar as empresas que são meras "reagentes ao mercado" daquelas que são "arquitetas da própria estratégia". O relatório da Eurasia nos dá a direção do vento; cabe a você ajustar as velas ou continuar tentando remar contra a maré com as ferramentas de ontem.
Quem domina a ambidestria organizacional não teme o Risco 1 ou o Risco 10, porque entende que a volatilidade é o combustível para o crescimento acima da média. Sem receitas prontas, mas com uma direção clara: a eficiência do agora financia a disrupção do amanhã.
A pergunta que fica para sua próxima reunião de diretoria: Você está gastando 100% do seu tempo protegendo um modelo de negócio que a Eurasia diz que vai mudar, ou já alocou os 20% de energia necessários para construir o que será a sua empresa em 2030?
A prova de 2026 já começou, não haverá espaço para quem pedala olhando apenas para o próprio pneu.



