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O que a arte pode ensinar à gestão?

Por Thaís Fernandes


Sobre racionalidade, criação e o espaço vazio


Foto: Grazi Caliman
Foto: Grazi Caliman

Durante muito tempo, aprendemos a administrar tentando reduzir a incerteza. Planejar, organizar, dividir, controlar, medir. A história da Administração moderna foi construída sob uma forte confiança na racionalidade. Taylor procurou eficiência no trabalho, Fayol organizou funções administrativas, Weber descreveu a racionalidade burocrática. Foi um conhecimento fundamental para estruturar organizações cada vez maiores e mais complexas.


Essa construção também deixou uma herança: acostumamo-nos a decompor a realidade para compreendê-la. Pessoas viraram funções, trabalho virou processo, futuro virou projeção, resultado virou indicador. Há algo de profundamente cartesiano nessa maneira de olhar. Separamos as partes, classificamos, analisamos e buscamos nelas alguma possibilidade de controle.


A vida nas organizações, porém, sempre foi mais larga do que aquilo que conseguíamos medir.


Organizações são lugares onde pessoas constroem vínculos, interpretam acontecimentos, produzem sentidos, criam expectativas, sentem medo, cooperam, frustram-se, imaginam possibilidades e decidem. Por mais sofisticadas que se tornem nossas ferramentas de gestão, existe uma parte da experiência organizacional que continua escapando às planilhas.


Antonio Strati foi um dos pesquisadores que ajudaram a abrir essa fresta nos estudos organizacionais. Ao estudar a estética nas organizações, mostrou que uma empresa também pode ser conhecida por aquilo que as pessoas percebem, sentem, experimentam e significam. A experiência sensível aparece, assim, como uma forma de conhecimento organizacional. Há aspectos de uma organização que chegam primeiro pelos números. Outros chegam pelo ambiente, pelos silêncios, pelas relações, pelos símbolos, pela linguagem, pela forma como alguém se sente quando entra em uma sala.


A arte conhece profundamente esse território. Ela observa aquilo que costuma escapar ao olhar apressado, convive com a ambiguidade, trabalha com interpretação, experimenta caminhos ainda incompletos e encontra relações onde antes pareciam existir apenas elementos separados. Um artista pode olhar para aquilo que todos já viram e produzir outro enquadramento. Para a gestão, essa capacidade tem um valor imenso. Quando fiz meu Mestrado em Comunicação, Linguagens e Cultura, ouvi algumas vezes uma pergunta que, de certa forma, também me acompanhava: como aquilo contribuiria para uma trajetória construída na gestão?


Fazer essa associação nem sempre era simples. Eu vinha de um campo acostumado a falar de estratégia, resultado, processos, liderança e indicadores e me aproximava cada vez mais de cultura, linguagem, imaginário, arte e representação. Durante algum tempo, parecia que eu precisava construir uma ponte entre dois lugares muito distantes.Com o tempo, percebi que a ponte já estava lá. Gestão acontece entre pessoas. E pessoas vivem dentro de culturas, produzem linguagens, atribuem significados, criam símbolos, imaginam e interpretam o mundo. Entender essas dimensões ampliou profundamente a minha forma de compreender organizações. Aquilo que durante algum tempo me pareceu uma associação quase intuitiva possui, na verdade, um campo importante de pesquisa.


Steven Taylor e Donna Ladkin estudaram métodos baseados em arte no desenvolvimento de gestores e identificaram diferentes maneiras pelas quais experiências artísticas podem produzir aprendizagem, inclusive revelando aspectos de uma situação que permaneciam pouco visíveis e utilizando o próprio ato de criar como forma de reflexão. Ian Sutherland e Jasna Jelinek aproximaram arte, aprendizagem experiencial e desenvolvimento de lideranças ao observar executivos em experiências de regência coral. Naquele encontro entre pensamento, emoção, corpo, percepção e relação com o outro, liderança aparecia como algo maior do que um conjunto de técnicas.


Giovanni Schiuma levou esse debate para dentro da estratégia e da criação de valor nas organizações. Claudia Schnugg pesquisou intervenções artísticas como possibilidades de desenvolvimento individual, de equipes e das próprias organizações. Ariane Berthoin Antal encontrou algo que gosto particularmente: em suas pesquisas, experiências com arte aparecem associadas à possibilidade de ver mais e ver diferente.


Há muita gestão dentro disso. Estratégia também nasce da capacidade de perceber aquilo que ainda não está completamente evidente. Inovação começa quando alguém consegue imaginar uma possibilidade que ainda não existe. Cultura organizacional é feita de símbolos, rituais, histórias e significados compartilhados. Liderança acontece em relações. Tomada de decisão carrega técnica, repertório, percepção e interpretação.


Teresa Amabile, uma das principais pesquisadoras sobre criatividade nas organizações, dedicou décadas a demonstrar que criatividade não é um acontecimento espontâneo reservado a pessoas excepcionalmente inventivas. Conhecimento, motivação e ambiente

interferem diretamente na capacidade de criar. Organizações podem ampliar essa

possibilidade ou sufocá-la.


Nesse ponto, arte e gestão voltam a se encontrar. A arte permite experimentar antes da certeza, aproximar razão e sensibilidade e permanecer algum tempo diante de uma questão antes de transformá-la em resposta. Dentro de organizações pressionadas pela velocidade, observar melhor, produzir outros significados e imaginar possibilidades também pode ser profundamente estratégico. Isso fica ainda mais evidente quando olhamos para a trajetória das próprias organizações.


Empresas crescem, encontram um modelo que funciona, constroem estruturas, aperfeiçoam processos, acumulam conhecimento e aprendem a reconhecer seus próprios padrões. Durante algum tempo, os indicadores respondem. Os números oferecem referências. O passado ajuda a projetar o futuro.Até que alguma coisa se desloca. O mercado muda. O comportamento das pessoas muda.


Uma tecnologia reorganiza uma cadeia inteira. O modelo de negócio perde força. As estruturas financeiras balançam. Os dados continuam sobre a mesa, mas já não devolvem a mesma certeza.


E o que existe entre aquilo que deixou de funcionar e aquilo que ainda não foi criado? Penso em um palco de teatro antes de a cena começar: vazio. Não há cenário, personagem ou movimento. Para quem olha rapidamente, existe apenas ausência. Para quem cria, aquele espaço contém inúmeras possibilidades.


Em determinados momentos, o líder também se encontra diante desse palco. Pode voltar aos dados, estudar os indicadores, observar o mercado, conversar com pessoas, buscar referências, reconstruir cenários. Tudo isso permanece fundamental. Mas nenhuma análise consegue entregar antecipadamente a forma exata de algo que ainda não existe. Há um espaço vazio entre a resposta que perdeu sua força e a próxima resposta. É nesse espaço que a imaginação ganha valor para a gestão.


O artista conhece bem esse lugar. A tela branca, a página vazia, o palco sem cena, o silêncio antes da primeira nota. Criar envolve entrar em contato com algo que ainda não possui forma. Há desconforto ali, porque nossa educação gerencial nos acostumou a procurar respostas. A experiência artística também ensina a conviver por algum tempo com a pergunta.


Essa postura aparece nas pesquisas de Berthoin Antal com artistas dentro de organizações: deslocar perspectivas, interromper maneiras habituais de olhar, abrir novas perguntas e criar espaços de experimentação. Uma contribuição importante para organizações que, em algum momento de suas trajetórias, terão de criar sem possuir todas as certezas.


Essa reflexão me faz voltar a um livro de que gosto muito, publicado no final dos anos 1980: Renascença Organizacional, de Fela Moscovici. Seu subtítulo carregava uma provocação que atravessou o tempo: a revalorização do homem frente à tecnologia para o sucesso da nova empresa. Em “Corações e máquinas”, Moscovici escreve: “As máquinas fazem o trabalho pesado e os homens ficam livres para pensar, sonhar e desfrutar o prazer de sua existência.” Pensar e sonhar: duas palavras que dificilmente encontramos em um indicador de desempenho e que, ainda assim, estão presentes na origem de praticamente tudo aquilo que um dia foi novo.


Fela Moscovici escrevia sobre relações, razão, fantasia, comportamento, tecnologia e desenvolvimento organizacional em um momento no qual as ferramentas tecnológicas eram muito diferentes das que conhecemos hoje. Sua pergunta, no entanto, permanece atual: à medida que sofisticamos nossos sistemas, que espaço reservamos para aquilo que é profundamente humano?A arte ajuda a manter essa pergunta viva. Sua contribuição para a gestão está também na ampliação da nossa capacidade de perceber pessoas, nuances, relações, contradições, silêncios, movimentos e possibilidades. Perceber aquilo que ainda não virou dado e, mesmo assim, já está acontecendo. Encontrar relações entre elementos aparentemente desconectados. Imaginar aquilo que ainda não conseguimos nomear. Isso também é repertório para decidir.


Lacan escreveu, em 1965, que “em sua matéria, o artista sempre o precede” (LACAN, 1965/2003, p. 200). A afirmação era dirigida à própria psicanálise e carregava um reconhecimento bonito sobre aquilo que a arte consegue alcançar antes mesmo que a teoria consiga formular.


Se, para Lacan, o artista chegava antes do psicanalista, talvez haja alguma humildade necessária também à gestão: nem sempre o método chega primeiro. Às vezes, antes dele, já passou a imaginação.


A gestão aprendeu a organizar, medir, controlar e analisar. A arte acrescenta outra dimensão a esse conhecimento: a capacidade de imaginar.


Porque haverá momentos em que uma organização terá processos, indicadores, pesquisas, informações e todos os dados disponíveis e, ainda assim, precisará criar alguma coisa que nunca existiu.


Nesses momentos, estaremos novamente diante do palco vazio. E o vazio, para quem aprendeu a criar, não representa ausência. É o espaço onde o novo ainda pode acontecer.


Thaís Fernandes


Graduada em Gestão e Marketing, com MBA em Gestão e Desenvolvimento de Pessoas pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e Mestre em Comunicação, Linguagens e Cultura, na linha de pesquisa Sociedade, Representações e Tecnologia. Atualmente, é Diretora da Afya Educação Médica em Belém. Possui mais de 10 anos de trajetória no setor educacional, com atuação como professora, gestora acadêmica e diretora, além de experiência em posições de liderança em diferentes contextos organizacionais.


Atua também com projetos de consultoria em gestão, com foco em desenvolvimento organizacional, estratégia e pessoas. É autora de artigos e revisora técnica de livros, com produção voltada às áreas de comunicação, educação e gestão.


Ao longo de sua carreira, ministrou palestras, cursos e workshops no Brasil e no exterior, abordando temas como gestão, liderança, marketing, comunicação, desenvolvimento sustentável para a Amazônia, empregabilidade, educação, capacitação de professores, inovação e o protagonismo feminino no mercado de trabalho.

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