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A origem do cooperativismo financeiro no Brasil e por que esse modelo continua atual

O cooperativismo financeiro surgiu como resposta à exclusão de pessoas e pequenos empreendedores do sistema tradicional de crédito. No Brasil, o movimento ganhou forma em 1902, com a fundação da primeira cooperativa de crédito em Nova Petrópolis (RS) — instituição que permanece em funcionamento até hoje, atualmente filiada ao sistema Sicredi. Inspirada nos princípios de autogestão, solidariedade e ajuda mútua, essa experiência marcou o início de um modelo que transformaria o acesso a serviços financeiros no país.


Desde então, o cooperativismo se expandiu com foco na união de pessoas para viabilizar acesso justo ao crédito, à poupança e a outros serviços financeiros, promovendo inclusão, desenvolvimento local e fortalecimento da autonomia econômica das comunidades.


Superação de desafios no Brasil


A trajetória brasileira não foi linear. Entre as décadas de 1960 e 1980, o cooperativismo de crédito enfrentou restrições regulatórias, ambiente econômico instável e períodos de retração institucional. O país vivia inflação elevada, instabilidade monetária e forte concentração do sistema financeiro.


Mesmo nesse cenário adverso, o setor se reorganizou. A Constituição de 1988 consolidou a inserção das cooperativas no Sistema Financeiro Nacional, abrindo espaço para profissionalização da governança, fortalecimento institucional e crescimento sustentável a partir da década de 1990.


Assim como em outros países, o cooperativismo no Brasil demonstrou resiliência e capacidade de adaptação diante de crises econômicas e transformações estruturais. Para exemplificar essa força, conforme citado por Ênio Meinen em seu livro Cooperativismo Financeiro na década de 2020, das 50 maiores instituições financeiras globais, seis são de natureza cooperativa, ou controladas por cooperativas financeiras 8Crédit Agricole, Groupe BPCE, Rabobank Group, Norinchukin Bank,Banque Federative du Crédito Mutuel - BFCM e DZ BAnk)


Atualidade em um sistema financeiro digital


O avanço da digitalização transformou profundamente o sistema financeiro. Ainda assim, o cooperativismo não apenas acompanhou essa evolução como ampliou sua participação no mercado.


Hoje, o Brasil conta com grandes sistemas cooperativos, com governança moderna e forte investimento em tecnologia, que operam em escala nacional sem perder a lógica de proximidade com o associado. Assim, constituem a maior rede física em todo o sistema financeiro, e são a única instituição financeira em mais de 400 municípios.


O Sicredi, por exemplo, já ultrapassou a marca de 3 mil agências distribuídas em mais de 2,1 mil municípios e atingiu neste mês a marca de 10 milhões de associados, consolidando-se, nesse quesito, como o maior sistema cooperativo de crédito do país. Esse crescimento ocorre na contramão do sistema bancário convencional, que reduziu estruturas físicas nos últimos anos, enquanto o cooperativismo ampliou presença territorial e base de relacionamento.


Além disso, o Banco Central do Brasil tem incluído o tema do cooperativismo e seu papel sistêmico em sua agenda regulatória e de supervisão, reforçando a importância do segmento para a estabilidade e o desenvolvimento do sistema financeiro — reconhecimento que posiciona as cooperativas como parte estratégica da diversidade institucional do Sistema Financeiro Nacional.


Conexão com o desenvolvimento regional


De acordo com o Panorama do Sistema Nacional de Crédito Cooperativo – Dezembro/2024, publicado pelo Banco Central do Brasil, o cooperativismo de crédito já alcança 7,6% da população brasileira associada a alguma cooperativa. O destaque continua sendo a Região Sul, onde a penetração chega a 24,6% da população, reflexo de sua trajetória histórica como precursora do modelo.


No Norte, o crescimento também é consistente e chegou o mesmo período a 5,6% da população — e essa evolução também pode ser observada no Pará. Ainda assim, os dados regionais evidenciam o espaço significativo para expansão: na Região Norte, 37% dos municípios possuem participação cooperativa inferior a 1% da população, em contraste com a Região Sul, onde 44% dos municípios apresentam mais de 50% da população associada a cooperativas de crédito.


Esse contraste regional ajuda a compreender o cenário paraense. Embora o Pará acompanhe o avanço do cooperativismo no Norte, o nível de penetração ainda revela um potencial expressivo de desenvolvimento e inclusão financeira. O modelo cresce de forma consistente, mas há margem relevante para ampliar presença, relacionamento e impacto econômico em todo o território estadual.


O cooperativismo financeiro não se resume a produtos ou taxas. Trata-se de um modelo que aproxima decisões da realidade local, promove o desenvolvimento social, fortalece a economia regional e estimula relações financeiras mais responsáveis e duradouras. Em um cenário de transformações constantes no sistema financeiro, compreender esse modelo é fundamental para escolhas mais conscientes — tanto individuais quanto coletivas.


No próximo artigo, analisaremos como o cooperativismo financeiro equilibra crescimento com crédito responsável.

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