Brasil pode enfrentar pressão no abastecimento de diesel com alta do petróleo
- Elisa Vaz

- Mar 27
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O risco de desabastecimento de óleo diesel no Brasil não é imediato, mas já aparece no radar do setor, especialmente em regiões mais dependentes de logística complexa, como o Norte do país. E esse cenário ganhou novos elementos nas últimas semanas.
Em um momento de alta do petróleo no mercado internacional a partir da guerra no Oriente Médio e a defasagem entre os preços internos e externos, o combustível pode deixar de ser economicamente atrativo para importação, o que pressiona a oferta. Na prática, isso muda a lógica de abastecimento do país.
Os primeiros sinais desse movimento já começam a aparecer. Só no Rio Grande do Sul, até a última quarta-feira (25), o número de municípios que relataram problemas relacionados à escassez no abastecimento de óleo diesel chegava a 166, de acordo com um boletim da Federação das Associações de Municípios do Rio Grande do Sul (Famurs). Embora seja um recorte regional, o episódio ajuda a ilustrar como a cadeia pode reagir em momentos de pressão.
O ponto central está na dinâmica de importação. Para abril, a previsão é de redução nas importações no Brasil, devido à disparada de preços no exterior. O volume importado varia entre 25% e 30% da demanda mensal, e o restante é complementado pela produção nacional. A preocupação é que, com a alta do diesel importado e sem aumentos da Petrobras, a compra no exterior não compense. E isso é relevante porque o Brasil ainda depende de forma significativa desse volume externo.
Para entender melhor esse cenário, eu conversei sobre esse assunto com o representante do Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo, Gás Natural, Biocombustíveis e Lojas de Conveniência do Pará (Sindicombustíveis-PA), o advogado Pietro Gasparetto.
Segundo ele, o Brasil ainda depende de importações relevantes para suprir o mercado interno e, quando há defasagem entre o preço interno e o internacional, o produto deixa de ser economicamente atrativo para importadores.
“Se esse descompasso persistir, há, sim, um risco progressivo de redução na oferta, sobretudo em regiões onde o custo logístico já é mais elevado”, pontuou. A leitura reforça a vulnerabilidade de regiões mais afastadas dos grandes centros de refino.
Além da questão do abastecimento, ele ainda comentou que a alta do petróleo, impulsionada pelas tensões no Oriente Médio, tem impacto direto e praticamente imediato sobre o custo dos combustíveis, em especial o diesel. Isso ocorre porque o diesel é a base da matriz logística brasileira - é ele que movimenta a maior parte do transporte rodoviário de cargas no país.
É justamente por isso que o diesel tem um efeito tão amplo na economia. Qualquer instabilidade no mercado tende a se espalhar rapidamente, com impacto direto sobre custos, preços e atividade produtiva.
No curto prazo, Pietro diz que os principais efeitos são claros: aumento do custo do frete, elevação do preço de alimentos e produtos essenciais e pressão inflacionária generalizada. “Toda a cadeia produtiva acaba sendo impactada, porque o transporte está presente em praticamente todas as etapas da economia”.
Do lado da oferta, segundo a Petrobras, as refinarias estão operando em capacidade máxima e com soluções logísticas otimizadas.
No fim das contas, o cenário combina pressão internacional, dependência de importações e limitações internas - um equilíbrio delicado para um insumo essencial da economia.
Sem ajustes que alinhem preços, logística e previsibilidade de abastecimento, o risco passa a fazer parte do ambiente de negócios, exigindo atenção constante de empresas, distribuidores e do próprio poder público.
Elisa Vaz é jornalista graduada na UFPA, tem anos de experiência em cobertura política e econômica e formação em Economia pela Fipe.



