Caso Master: o alerta ignorado que expôs falhas e abalou a confiança no sistema financeiro
- Elisa Vaz

- Jan 19
- 3 min read
Updated: Jan 21
O caso do Banco Master ganhou novos desdobramentos na semana passada. Em meio à investigação da Polícia Federal (PF) que apura uma fraude estimada em R$ 12 bilhões, foi deflagrada uma nova fase da Operação Zero Compliance, com mandados de busca e apreensão contra o dono do banco, Daniel Vorcaro, que cumpre prisão domiciliar em São Paulo.
No dia seguinte, quinta-feira (15), o Banco Central (BC) anunciou a liquidação da antiga Reag Investimentos, envolvida nas suspeitas de fraudes. O próprio Banco Master já havia sido liquidado - medida adotada quando o BC avalia que a situação de uma instituição financeira é considerada irrecuperável. A operação teve o objetivo de combater a emissão de títulos de crédito falsos.
Para se ter uma dimensão do impacto, a liquidação do Banco Master deve representar a maior operação de resgate da história do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), mecanismo de proteção aos investidores, que precisará desembolsar quase R$ 41 bilhões para cerca de 800 mil credores.
Falha na fiscalização
O que chama atenção é que a fraude de proporções bilionárias passou despercebida pelo Banco Central. O Master chegou a ser classificado por agências internacionais de risco como uma instituição “segura”, com inúmeras aquisições no Brasil e no exterior. A instituição também apresentou crescimento expressivo em um intervalo de apenas um ano, registrando lucro líquido de R$ 1,068 bilhão em 2024, contra R$ 532 milhões em 2023.
A trama, que envolveu não apenas a PF e o Banco Central, mas também ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), figuras políticas e grandes empresários do país, revelou um escândalo sem precedentes no sistema financeiro brasileiro e gerou uma crise de credibilidade e de segurança jurídica no país.
Assessor de investimentos ouvido pela coluna, Idean Alves aponta que tanto o BC quanto órgãos de fiscalização poderiam ter evitado a escalada do banco. Um ano antes de determinar a liquidação do Master, por exemplo, o Banco Central já havia detectado dificuldades do banco em captar recursos e honrar compromissos, alertando sobre o risco de adoção de “medidas prudenciais preventivas”. A informação consta em parecer do Tribunal de Contas da União (TCU).
“Isso traz insegurança aos investidores pessoas físicas e investidores institucionais, já que muitos fundos públicos e privados, grandes empresas e outros entes estavam investindo no Master como se fosse um ativo muito seguro. Todo o ecossistema perde com um evento como esse”, detalha.
A tendência, segundo ele, é de um endurecimento na vigilância dos órgãos fiscalizadores. “Já vimos esse movimento na nova regulamentação sobre fintechs, agora devemos ver cada vez mais sobre bancos pequenos e médios, fundos de investimentos, entre outros canais do mercado financeiro que podem ser passíveis de fraude, lavagem de dinheiro e crime financeiro”, detalha o assessor de investimentos.
Em meio a esse cenário de insegurança, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou, nesta segunda-feira (19), que o governo avalia uma proposta apresentada por ele para ampliar o poder de atuação do Banco Central, incluindo a possibilidade de fiscalizar fundos de investimentos, atribuição que hoje cabe à Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A reação do governo indica que o caso extrapolou os limites de um escândalo pontual e passou a exigir respostas do Estado.
“O caso Master e Reag é emblemático para todo o mercado, pois não só os pequenos investidores foram afetados, mas os institucionais e as grandes empresas. Isso mostra o tamanho da fraude a que todos estavam expostos e mostra que ninguém está imune. Então é preciso manter a ‘humildade intelectual’, o voto de dúvida de que o imponderável pode acontecer e blindar a carteira com diversificação”, ensina Idean.
Nos deparamos hoje com um divisor de águas para o mercado financeiro brasileiro. Não se trata apenas de perdas financeiras, mas de um abalo direto na percepção de segurança jurídica que sustenta decisões de investimento no país. Ao atingir pequenos, médios e grandes investidores, o episódio expõe as fragilidades de um sistema que falhou em identificar riscos evidentes.
Vemos um alerta claro: em um ambiente financeiro cada vez mais complexo, a confiança precisa ser constantemente testada, fiscalizada e, sobretudo, questionada.



