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Centros históricos: entre a preservação e a degradação, uma escolha de cidade

Centros históricos, em qualquer cidade, raramente são apenas porções antigas do tecido urbano. São territórios onde o tempo se materializa em fachadas, traçados e espaços públicos que condensam memória, identidade e cultura. Ainda assim, muitos enfrentam dilemas recorrentes: perda de vitalidade, esvaziamento residencial, degradação física e uma tensão permanente entre preservação e demandas contemporâneas.

 

Parte desse conflito nasce da lógica urbana recente. Modelos de mobilidade e dinâmicas imobiliárias privilegiam estacionamento, vias largas e tipologias pouco compatíveis com a escala delicada e a morfologia compacta dos centros tradicionais. O que não se ajusta a essa racionalidade passa a ser visto como entrave, quando, na verdade, concentra valores simbólicos, culturais e econômicos dificilmente reproduzíveis em novas áreas da cidade.

 

Patrimônio cultural não é apenas um conjunto de edifícios protegidos, mas uma herança coletiva. Estruturas históricas funcionam como suportes materiais de narrativas urbanas capazes de produzir pertencimento, atratividade e dinamismo quando adequadamente ativadas.

 

Nesse cenário, a reabilitação dos centros históricos deixou de ser apenas uma pauta de conservação para se tornar estratégia urbana. Turismo, cultura e, de forma cada vez mais evidente, gastronomia emergem como forças capazes de reintroduzir fluxos, diversificar usos e reconstruir vínculos entre cidade e patrimônio. Não se trata de transformar história em cenário, mas de reinserir esses territórios na vida cotidiana.

 

Belém oferece sinais promissores, quando o assunto é restauro pontual. O PUBA, idealizado pelos chefs Thiago Castanho e Gustavo Rodrigues, junto ao diretor de fotografia Thiago Pelaes, na Cidade Velha, propõe uma leitura contemporânea da mandioca, articulando identidade, experimentação e ocupação qualificada do patrimônio. O Celeste, da chef Esther Weyl, combina técnica refinada, bioeconomia e ingredientes amazônicos em diálogo com o contexto histórico. Já o Restaurante Casa do Saulo Onze Janelas evidencia como arquitetura, paisagem e cozinha regional podem produzir experiências urbanas potentes.

 

Mais que empreendimentos gastronômicos, são vetores de reativação urbana, iniciativas que, em um ecossistema favorável, poderiam posicionar Belém em circuitos internacionais, quem sabe até com distinções como Bib Gourmand ou Estrelas Michelin.

 

Como sintetiza a arquiteta restauradora Tainá Arruda, a cidade é um acontecimento contínuo, cuja alma se constrói ao longo do tempo por meio de suas obras materiais. Preservar, portanto, não é congelar, mas atualizar usos e significados.

 

Transformar esse potencial em desenvolvimento, porém, não é tarefa espontânea nem romântica. Centros históricos não se sustentam apenas pela proteção legal ou pelo valor afetivo que carregam. Sem articulação entre poder público, iniciativa privada e estratégias econômicas consistentes, a degradação tende a prevalecer sobre a memória.

 

O futuro desses territórios não será definido pelo acaso, mas pelas escolhas políticas, econômicas e urbanas que a cidade decidir assumir. Preservar, hoje, é menos um gesto de reverência ao passado e mais uma decisão concreta sobre que cidade se pretende construir.

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