Com expectativa para fim do tarifaço, indústria paraense mira recuperação do setor
- Elisa Vaz

- Feb 8
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Updated: Feb 9
Em meio ao reposicionamento das relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos, um tema volta ao radar do setor produtivo paraense: os impactos do chamado “tarifaço” norte-americano. O debate envolve competitividade industrial, estratégia de mercado e o risco de retrocesso na agregação de valor da produção regional.
A metalurgia, especialmente o ferro-gusa e a alumina calcinada, aparece hoje como o setor industrial paraense com maior potencial de ganho caso haja a retirada total das tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros. Também entram nesse radar as exportações de madeira processada e itens ligados à bioeconomia, com destaque para o açaí.
O tema ganhou novo fôlego político nesta semana. O vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Geraldo Alckmin, afirmou que o governo federal busca zerar as tarifas durante o encontro entre Lula (PT) e o presidente norte-americano, Donald Trump, marcado para março. A retirada das taxas sobre os produtos brasileiros que ainda estão sob o efeito do tarifaço é uma das principais pautas da agenda.
Segundo a gerente do Centro Internacional de Negócios (CIN) da Federação das Indústrias do Pará (Fiepa), Cassandra Lobato, ouvida pela coluna, esses segmentos estão entre os mais penalizados pela política tarifária norte-americana, que ainda gera prejuízos concretos imediatos à indústria do Pará ao elevar drasticamente os custos operacionais e reduzir a competitividade de produtos estratégicos.
A alumina e o ferro-gusa, por exemplo, registraram quedas de 37,2% e 9,6%, respectivamente, em janeiro de 2026. Isso, de acordo com a especialista, comprometeu as margens de lucro do setor e a previsibilidade necessária para novos investimentos.
Na avaliação da Fiepa, alinhada à Confederação Nacional da Indústria (CNI), a manutenção das tarifas no médio prazo impõe à indústria o risco de uma retração estrutural, na qual a inviabilidade de exportar itens processados força a indústria regional a retroceder para estágios de menor valor agregado.
Entenda o tarifaço
Para compreender a dimensão do impacto, é preciso olhar para a origem do tarifaço. Os produtos brasileiros, oficialmente, têm tarifas de 10%, assim como em outros países. Porém, o governo Trump anunciou uma sobretaxa de 40%, o que resultou em 50% de taxação no Brasil. O país voltou atrás em novembro e decidiu retirar a sobretaxa que incidia sobre alguns produtos dessa lista.
Embora a recuada tenha trazido alívio para boa parte dos produtos do agronegócio, o tarifaço ainda afeta a indústria, principalmente, que segue com a sobretaxa de 40%.
De acordo com Alckmin, a expectativa para a viagem é positiva. Ele disse à TV Globo que “nós tínhamos 37% da exportação brasileira para os EUA agravada pelo tarifaço, reduziu e hoje está em 22%. Já caiu bem o tarifaço, mas a ideia é zerar. Não há razão para ter um tarifaço".
Perspectiva ao Pará
A taxação norte-americana tem sido apontada como um entrave à competitividade da indústria brasileira. Ainda assim, o cenário não é de dependência absoluta do mercado norte-americano.
Na avaliação do CIN, apesar de o tarifaço impactar o volume de exportação dos produtos, não engessa a capacidade estratégica da indústria paraense de se posicionar no mercado internacional. “O Pará possui uma matriz comercial diversificada e resiliente, mantendo relações consolidadas com a Ásia e a União Europeia, que funcionam como um contrapeso ao posicionamento americano”, enfatizou Cassandra Lobato.
Neste cenário, para a Fiepa, a implementação do Acordo Mercosul-União Europeia surge como um pilar estratégico. “A eliminação de barreiras e a convergência regulatória abrem novas janelas de oportunidade para produtos de maior valor agregado, garantindo que o Pará não fique refém de um único parceiro comercial e reafirme sua autonomia competitiva no comércio internacional”, destacou Cassandra, com apoio do Observatório da Indústria do Pará
Mesmo com possíveis avanços nas negociações internacionais, o setor industrial paraense ainda convive com obstáculos históricos. Para ampliar a presença de tais produtos no mercado internacional, a CNI e a Fiepa apontam que ainda é preciso superar desafios estruturais, como o elevado custo logístico e tributário do “Custo Brasil”.
“Também há a necessidade de adequação às rigorosas normas técnicas e certificações de sustentabilidade exigidas pelos compradores americanos, o que demanda investimentos contínuos em inovação e na rastreabilidade socioambiental das cadeias produtivas paraenses”, mencionou Cassandra à coluna.
No tabuleiro do comércio internacional, o tarifaço revela mais do que uma disputa comercial pontual. Ele expõe a necessidade de o Brasil fortalecer sua estratégia industrial, ampliando mercados, investindo em inovação e agregando valor à produção local, especialmente estados exportadores como o Pará.
A eventual retirada das tarifas pode representar alívio, mas o desafio continua sendo estrutural: garantir que a indústria paraense avance não apenas em volume de exportações, mas em protagonismo e competitividade global.
Elisa Vaz é jornalista graduada na UFPA, tem anos de experiência em cobertura política e econômica e formação em economia pela Fipe.



