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Decidir bem exige mais mundos

Por Thaís Fernandes


Thaís Fernandes

Toda decisão parte de um lugar.


Nem sempre um lugar visível, geográfico, identificável no mapa. Mas um lugar que existe, feito de experiências, referências, histórias vividas e caminhos percorridos. Decidir não é um ato neutro. É um ato situado.


A psicologia nos ajuda a compreender que percebemos o mundo a partir de modelos mentais, estruturas que organizam a forma como interpretamos a realidade. A psicanálise aprofunda esse olhar ao indicar que nossas escolhas também são atravessadas por aquilo que nos constitui de forma menos evidente: a história psíquica, os afetos, as memórias e conteúdos que operam para além da consciência, influenciando o modo como percebemos, interpretamos e reagimos ao mundo. Já a sociologia evidencia que essas decisões não são apenas individuais, mas moldadas por contextos sociais, condições socioeconômicas, trajetórias e posições que ocupamos na estrutura da sociedade.


Quando essas perspectivas se encontram, algo se torna evidente: nenhuma decisão nasce do zero. Ela nasce de quem decide. E isso impõe um limite silencioso. Nenhuma leitura alcança aquilo que ainda não foi capaz de reconhecer.


Talvez por isso o ponto mais sensível desse debate não esteja apenas em quem decide, mas a partir de quantas experiências essa decisão é construída. Quando diferentes trajetórias se encontram, a capacidade de interpretação se amplia. Quando os caminhos se parecem demais, as decisões tendem a reproduzir o mesmo olhar. Não por falta de competência, mas por restrição de repertório.


Esse movimento, embora sutil, é profundamente estruturante. Porque tudo o que produzimos, estratégias, produtos, políticas, projetos e organizações, é produzido por pessoas. E pessoas não criam a partir do vazio. Criam a partir do que viveram, do que reconhecem, do que aprenderam a considerar possível.


A diversidade, nesse sentido, não é apenas presença. É ampliação de mundo. E ampliar o mundo é ampliar a própria capacidade de compreender.


Por muito tempo, diversidade foi tratada apenas como uma pauta de inclusão. E ela é, sem dúvida, também isso. Mas reduzir a diversidade a uma política afirmativa é diminuir seu impacto real. Diversidade é, sobretudo, uma política de qualidade. Uma política de inovação. Uma política de inteligência organizacional. Porque decisões melhores não nascem apenas de mais dados, mas de perspectivas mais amplas para interpretar esses dados.


Talvez por isso metodologias contemporâneas de criação, como o design thinking, tenham reposicionado o humano no centro dos processos de decisão. Não como discurso, mas como método. Compreender antes de propor, escutar antes de definir, reconhecer a complexidade antes de simplificar. Nenhuma solução relevante nasce de um único ponto de vista.


Sem essa ampliação, o que se constrói tende a funcionar apenas dentro de um mesmo circuito de referências. É eficiente para quem já está incluído naquele olhar, mas encontra limites quando precisa dialogar com realidades mais amplas. Muitas estratégias falham justamente aí. Não na execução, mas na aderência. Não por ausência de técnica, mas por ausência de alcance humano.


A psicanálise nos lembra que não vemos o mundo apenas como ele se apresenta, mas como conseguimos significá-lo a partir da nossa própria história. A psicologia aponta que nossas decisões são atravessadas por vieses cognitivos. A sociologia evidencia que nossas escolhas são condicionadas não apenas por trajetórias individuais, mas também por desigualdades estruturais, acesso a recursos e posições sociais.


Gestão, portanto, nunca foi apenas um campo técnico. Gestão é, sobretudo, tomada de decisão. E talvez uma das maiores sofisticações da gestão contemporânea esteja justamente em reconhecer que decidir bem exige mais do que domínio de ferramentas. Exige capacidade de integrar diferentes formas de compreender o humano.


No fundo, decidir não é apenas escolher entre alternativas. É operar dentro de um campo de possibilidades que muitas vezes já nasce delimitado pelo olhar de quem decide. E ampliar esse campo é uma escolha. Uma escolha por incluir mais experiências, mais trajetórias e mais formas de perceber o mundo.


Porque quanto mais restrito é o conjunto de referências que compõe uma decisão, maior a chance de que ela seja, ao mesmo tempo, coerente e insuficiente. Coerente com o universo de quem decide. Insuficiente para a complexidade do mundo que precisa alcançar.


No fim, diversidade não é apenas uma pauta contemporânea. É uma condição estrutural para decisões melhores, organizações mais inteligentes e projetos mais conectados com a realidade. Não porque elimina erros, mas porque reduz cegueiras. Porque amplia o que pode ser visto e, principalmente, o que pode ser considerado.


Talvez por isso o maior desafio do nosso tempo não seja apenas decidir mais rápido.


Seja aprender a decidir a partir de mais mundos.


Porque quando a decisão nasce de poucos lugares, ela dificilmente alcança muitos. E, em um mundo cada vez mais complexo, talvez a verdadeira inteligência esteja menos na velocidade da resposta e mais na capacidade de enxergar aquilo que, sozinho, não se vê.

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