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Do Estreito de Ormuz às bombas no Brasil: trégua derruba petróleo e pode aliviar combustíveis

A reabertura do Estreito de Ormuz pelo Irã, ainda que temporária, foi suficiente para provocar um efeito imediato e expressivo nos mercados globais: o petróleo despencou, o dólar recuou e ativos de risco ganharam fôlego. A geopolítica segue ditando o ritmo da economia mundial e, consequentemente, da brasileira. Por se tratar de um país em que o custo dos combustíveis atravessa desde o preço dos alimentos até o valor das passagens aéreas, qualquer alívio vindo de fora pode significar muito, redefinindo pressões inflacionárias, políticas públicas e até o humor do mercado.


Nesta sexta-feira (17), o preço do petróleo caía cerca de 10% após a reabertura total do Estreito de Ormuz para a passagem de embarcações enquanto durar o cessar-fogo com os Estados Unidos - a trégua expira na quarta-feira (22). A commodity chegou ao menor patamar em mais de um mês: alcançou US$ 86,41 e atingiu o menor valor desde 10 de março deste ano, quando estava a US$ 87,80.


Mais do que uma simples oscilação de mercado, o movimento escancara como o risco geopolítico ainda é o principal termômetro do preço da energia no mundo. Para entender melhor sobre o assunto, conversei com o economista Mário Tito, doutor em relações internacionais. Segundo ele, o que está em jogo vai além da queda pontual e envolve o funcionamento de toda a cadeia global de energia.


“A confiança gera uma estabilidade na relação e um ambiente favorável aos negócios. Ninguém negocia em condições de incertezas. Nesse sentido, a reabertura do Estreito de Ormuz gera, em um primeiro momento, mais tranquilidade para começar a negociar. Ela permite que aquele petróleo ou os outros combustíveis já comprados, que estavam represados no Golfo Pérsico, sigam em direção ao seu destino, fazendo com que aumente a oferta do petróleo e seus produtos derivados, gerando um preço mais baixo”, explica.


Ou seja, o alívio imediato não vem de uma mudança estrutural, mas da liberação de um estoque que estava parado por causa da tensão no Oriente Médio. Na avaliação do economista, o impacto imediato deve ser sentido principalmente no curto prazo, com reflexo direto na oferta. “No primeiro momento, a tendência é de diminuição no preço dos combustíveis no destino, exatamente pelo aumento da oferta. Isso ocorre porque estamos falando, sobretudo, do produto que já foi comprado e estava represado, que agora entra no processo de circulação até chegar ao consumo”.


Por outro lado, ele destaca que o cenário ainda exige cautela nas próximas etapas. A partir de agora, segundo Mário Tito, a compra de novas cargas de petróleo depende de negociação e de um ambiente mais seguro, o que ainda não está garantido. O cessar-fogo é frágil, há demandas em aberto entre Irã e Estados Unidos e isso impacta diretamente o médio e longo prazo. Mesmo assim, a tendência é que, diante da lógica de mercado, o fluxo vá sendo normalizado gradualmente. Em outras palavras, o mercado reage rápido ao alívio, mas continua precificando o risco de um novo choque.


É nesse ponto que o cenário internacional encontra a realidade brasileira. Especificamente sobre o Brasil, o momento pode ser benéfico. A baixa do petróleo deve atingir o mercado nacional, que contava com ajuda de um pacote do governo federal para segurar o encarecimento dos combustíveis no país e o impacto da alta do querosene de aviação no preço das passagens aéreas.


A queda externa pode fazer, de forma indireta, o que o governo ainda enfrenta dificuldade para implementar internamente. Tito reforça, no entanto, que não havia motivos diretos para aumentar a gasolina e o diesel no Brasil, até porque a Petrobras não havia repassado esses custos para os postos ou as distribuidoras - para ele, o que aconteceu, na prática, foi o aumento da margem de lucro das refinarias e dos postos de combustível. Isso ajuda a explicar por que, muitas vezes, o consumidor sente rapidamente a alta, mas demora a perceber a queda.


A reabertura do Estreito é o primeiro grande aceno do Irã em direção a um acordo pelo fim do conflito. Por esse canal passa mais de 20% de todo o comércio global de petróleo. O movimento ocorre em meio a uma tentativa de redução das tensões no Oriente Médio, após o anúncio de um cessar-fogo de dez dias entre Israel e Líbano, mediado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.


O efeito da queda mundial do preço do barril de petróleo ainda pode levar semanas para chegar às bombas. No fim das contas, o alívio observado agora tem prazo e contexto bem definidos. A queda do petróleo responde mais a uma trégua momentânea do que a uma solução definitiva para as tensões no Oriente Médio. Para o Brasil, o impacto tende a ser positivo, mas gradual - e ainda sujeito a ruídos ao longo do caminho.


Elisa Vaz é jornalista graduada na UFPA, tem anos de experiência em cobertura política e econômica e formação em Economia pela Fipe.


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