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Edifícios: O nome que não mora aqui

Caminhar pela cidade é também ler, ainda que distraidamente, uma coleção curiosa de nomes. Eles estão nas fachadas, nos letreiros elegantes, nos portões espelhados: “Villa Toscana”, “Le Jardin”, “New York Residence”, “Parc Avenue”. Por um instante, poderíamos imaginar que atravessamos continentes em poucas quadras. Mas não. Continuamos aqui.


Os nomes dos prédios dizem mais do que parece. Eles não apenas identificam um endereço; constroem uma atmosfera, sugerem um estilo de vida, insinuam pertencimento. Há, neles, uma promessa silenciosa: viver ali é aproximar-se de um certo ideal, europeu, cosmopolita, internacional. Um ideal que, curiosamente, raramente aponta para dentro.

 

Não se trata de acaso ou simples falta de criatividade. O mercado imobiliário entende profundamente o poder das palavras. Nomear é posicionar. Um “residence” pode soar mais sofisticado do que um “residencial”; “villa” evoca tradição e charme; “parc” sugere elegância e planejamento. São atalhos simbólicos que conversam diretamente com o desejo de status e distinção.

 

Há ainda um descompasso curioso entre o nome e a forma. As referências evocadas nos nomes parecem existir apenas no plano da imaginação, como cenários prometidos que não chegam a se materializar. O resultado é uma espécie de ficção urbana: fachadas contemporâneas, padronizadas, que vestem nomes estrangeiros como figurinos, sem que haja, de fato, uma relação entre o que se diz e o que se vê.

 

Mas o que fica de fora é igualmente revelador. Em um país de referências culturais tão vastas da arquitetura colonial às paisagens tropicais, das línguas indígenas às heranças africanas, por que esses repertórios aparecem tão pouco? Por que raramente vemos edifícios que celebrem nomes, sons e imagens que nos são próprios?

 

Talvez a resposta não esteja apenas no mercado, mas no espelho que ele reflete. Durante muito tempo, o imaginário de sucesso no Brasil foi construído com base no que vinha de fora. O estrangeiro, especialmente o europeu, foi associado ao refinamento, à tradição, àquilo que “deu certo”. Nesse contexto, adotar nomes importados não é só uma estratégia de venda, é também um gesto de aspiração.

 

Ainda assim, há algo de curioso, e talvez um pouco incômodo, nessa paisagem linguística. Ao multiplicarmos referências externas, criamos cidades que soam deslocadas de si mesmas, como se estivéssemos sempre tentando ser outro lugar. Como se o pertencimento precisasse de tradução.

 

Isso não significa rejeitar influências, que são inevitáveis e até desejáveis. Mas talvez seja hora de perguntar: o que aconteceria se valorizássemos mais aquilo que já temos? Se nossos prédios carregassem nomes que dialogassem com nossa história, nossa geografia, nossa sensibilidade?

 

No fim, a escolha de um nome é também a escolha de uma narrativa. E toda cidade, como toda cultura, precisa decidir, ainda que silenciosamente, qual história quer contar sobre si mesma.

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