Mercosul-UE: um acordo histórico que promete mexer na economia brasileira
- Elisa Vaz

- Jan 13
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Para o mercado brasileiro, o ano começa com uma boa notícia: após mais de 25 anos de negociações, o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia (UE) deve sair do papel e dar origem ao que é considerada a maior zona de livre comércio do mundo.
O pacto abrange um mercado de 720 milhões de consumidores. Desses, 450 milhões estão na Europa e 270 milhões na América do Sul, cerca de 25% do PIB global. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o Brasil deve ser o principal beneficiado pelo acordo.
Esse tratado prevê a redução e até a eliminação gradual de tarifas de importação e exportação, e também deve estabelecer regras comuns para comércio de bens industriais e agrícolas, investimentos e padrões regulatórios. Na prática, o objetivo é facilitar as trocas comerciais entre os 27 países da União Europeia e os quatro do Mercosul - Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai.
Embora a previsão de assinatura seja no próximo sábado (17), o acordo ainda depende dos trâmites internos de cada bloco. Pela UE, o texto precisa ser aprovado pelo Parlamento europeu. Já no Mercosul, como não há um Parlamento único, cada país fará sua própria ratificação dentro do Legislativo.
A coluna ouviu o economista Mário Tito Almeida, doutor em Relações Internacionais, sobre o assunto. Segundo ele, até o final do primeiro semestre, o Brasil já deve ter concluído esta etapa e poderá acionar os benefícios ligados ao acordo. Na segunda metade do ano, os consumidores começarão a ver produtos importados com preços mais baixos, como queijos, vinhos, chocolates, azeite de oliva e outros.
“Esses produtos que hoje entram no Brasil e que são de melhor qualidade têm um preço mais alto por causa exatamente dessas tarifas. Com o acordo, as tarifas deixam de existir, então é esperado que, a partir do segundo semestre, você compre, por exemplo, azeite de oliva e os principais vinhos europeus e queijos com um preço bem menor”, adianta o pesquisador.
Além de baratear os importados, o acordo tende a pressionar a indústria nacional a investir em qualidade, já que ela correrá o risco de perder competitividade se não atingir um diferencial em seus produtos.
Impactos do tratado
Na avaliação de pesquisadores, o tratado entre Mercosul e União Europeia tende a atuar como um efeito multiplicador positivo sobre os principais indicadores macroeconômicos do Brasil. Por exemplo, um dos efeitos que se pode esperar é o resultado positivo na balança comercial.
Hoje, o Brasil já registra saldo positivo no comércio internacional, com mais exportações do que importações. Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, foram exportados US$ 348,7 bilhões em produtos no ano de 2025, e importados US$ 280,4 bilhões.
Com o tratado entrando em vigor, o Brasil ganha mais mercado na cadeia produtiva, abrindo caminho para um cenário interessante que vai além das commodities - incluindo pecuária, minérios e tecnologia.
“A possibilidade de ter acesso a tecnologias diferenciadas pode ajudar na competitividade da indústria nacional. A balança comercial ainda tende a melhorar porque o Brasil pode aferir melhores condições de negociação com países europeus sem as tarifas”, comenta o economista Mário Tito.
Por outro lado, ao abrir uma porta mais ampla para a pecuária e outros produtos, é possível que se tenha um impacto ambiental maior que o atual, o que pode dificultar a venda para países da Europa. O especialista ressalta que “a tarifa aberta não significa a garantia de vender qualquer produto. Tem uma série de exigências, inclusive ambientais”.
Em resumo, o tratado, negociado ao longo de mais de duas décadas, é motivo de celebração e promete benefícios tanto para a indústria quanto para os consumidores. Ao mesmo tempo, impõe um desafio claro: elevar padrões, fortalecer uma política industrial consistente e estimular o setor produtivo nacional a ganhar qualidade e competitividade.
No final das contas, o sucesso do acordo dependerá da capacidade do Brasil de transformar abertura comercial em desenvolvimento sustentável.
Elisa Vaz é jornalista graduada na UFPA, tem anos de experiência em cobertura política e econômica e formação em economia pela Fipe.



