Prédios passam a valer mais no chão do que de pé em bairros nobres de São Paulo

A Prefeitura de São Paulo emitiu 11.152 alvarás de demolição nos últimos cinco anos, o equivalente a uma média de seis por dia, segundo a Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento. Por trás desse volume está a escassez de terrenos disponíveis para construir.
Nos bairros mais valorizados, comprar um edifício para derrubá-lo tornou-se, muitas vezes, a única alternativa para abrir espaço a novos empreendimentos. Não por acaso, as demolições se concentram nas regiões mais caras da capital.
Juntas, as subprefeituras de Pinheiros, com 2.184 alvarás, e Vila Mariana, com 2.044, respondem por quase 38% do total. No extremo oposto, Cidade Tiradentes registrou apenas dois no período, e Parelheiros, um.
Perto do Parque Ibirapuera, em uma avenida movimentada, um prédio desapareceu aos poucos, de cima para baixo. Içadas por guindastes até o topo, miniescavadeiras demoliram o edifício andar por andar, em um trabalho que durou seis meses.
O imóvel integrava um complexo formado por dois edifícios: um residencial de 12 andares, com dois apartamentos por pavimento, e um comercial de oito andares que, segundo Andrés Diez, engenheiro civil e sócio da Demolidora Diez, ainda estava praticamente novo.
Estimativas do mercado indicam que uma demolição desse porte custa cerca de R$ 4 milhões. No terreno, a Cyrela vai construir um empreendimento com elevador panorâmico e vista para o Parque Ibirapuera.
Diez compara o avanço desse tipo de operação em São Paulo ao que ocorreu em Taiwan, diante da falta de áreas para novas construções. Segundo ele, a prática cresce em ritmo assustador na capital paulista há cerca de três anos. Sua empresa derruba de 15 a 20 prédios por ano, e a demanda continua aumentando.
Para os próximos meses, a demolidora já tem 12 serviços contratados, a maioria na zona sul. Embora também opere no Rio de Janeiro e em Santa Catarina, cerca de 80% de seus projetos estão na capital paulista.
Entre os trabalhos recentes estão a demolição de um prédio alto na Consolação, três em Moema e quatro no Brooklin. Os edifícios mais comuns, porém, têm de cinco a oito andares.
Esse movimento também reflete as regras urbanísticas da cidade. Em 2023, a revisão do Plano Diretor ampliou as áreas próximas a estações de metrô e trem e a corredores de ônibus nas quais é permitido construir edifícios mais altos e com mais apartamentos.
Segundo a administração municipal, a distribuição das demolições está diretamente relacionada à diretriz de adensamento no entorno do transporte público. Um levantamento do Secovi-SP, o sindicato da habitação, evidencia o peso dessas regiões no mercado imobiliário.
Entre setembro de 2025 e agosto de 2026, foram lançadas 154.769 unidades residenciais na capital. Desse total, 67% estão nas zonas de maior adensamento. Os eixos de transporte, sozinhos, concentram 43,9% dos lançamentos.
Claudio Bernardes, vice-presidente de Urbanismo Metropolitano do Secovi-SP, explica que essas áreas correspondem a aproximadamente 3% do território municipal. A extensão limitada, combinada com o potencial construtivo, ajuda a explicar a disputa por terrenos.
Os eixos estratégicos foram criados em 2014, com a sanção do Plano Diretor Estratégico, ao longo dos sistemas de transporte coletivo de média e alta capacidade. Bernardes afirma que, após cerca de uma década de utilização dessas áreas, os terrenos vagos vão se esgotando. Restam, então, lotes ocupados por edifícios maiores, que passam a ser demolidos quando a operação se torna economicamente viável.
A maior parte dos clientes da demolidora é formada por incorporadoras, mas também há fundos. A demanda vem sobretudo do mercado de alto padrão, embora inclua construtoras do programa Minha Casa, Minha Vida que compram prédios antigos para demolir. Edifícios comerciais envelhecidos, que já não conseguem atrair inquilinos, também entram nessa conta.









