O que a Inteligência Artificial enxerga nas mensagens que sua empresa ignora? (Neste Caso - US$ 10 milhões)

Em agosto de 2026, no âmbito de um processo de falência conduzido perante o Tribunal de Falências do Distrito Sul de Nova York, nos Estados Unidos, a Google apresentou a oferta vencedora de um leilão envolvendo dados empresariais da Spirit Airlines, no valor de US$ 10 milhões.
Cumpre esclarecer que a proposta não envolveu a aquisição de imóveis, aeronaves, equipamentos, posições em aeroportos ou veículos pertencentes à companhia aérea. O objeto do leilão consistia em um conjunto de ativos digitais e informações empresariais, incluindo aproximadamente 100 milhões de e-mails e 500 milhões de mensagens e registros do Microsoft Teams, além de calendários, planilhas, documentos corporativos, materiais de marketing, informações de recursos humanos, registros de gerenciamento de projetos, bancos de dados financeiros, auditorias, apresentações e outros documentos operacionais.
A Google apresentou a oferta vencedora de US$ 10 milhões, superando a proposta inicial da Mercor, que havia oferecido US$ 7,5 milhões.
Nesse contexto, sindicatos e outros interessados levantaram questionamentos relacionados à privacidade, à propriedade intelectual e à extensão dos dados que seriam transferidos. Em 10 de setembro de 2026, a Google ainda respondia às preocupações apresentadas por um responsável pela fiscalização da privacidade, nomeado no processo de falência, especialmente quanto à necessidade de excluir informações pessoais identificáveis e determinados bancos de dados de clientes ou submetê-los previamente a procedimentos de desidentificação.
Cabe destacar que o episódio merece especial atenção na era da inteligência artificial, pois revela uma modalidade de ativo informacional ainda pouco valorizada pelas contabilidades das organizações: a memória operacional registrada nas plataformas de interações cotidianas.
O conhecimento informal talvez seja o ativo mais subestimado das empresas
Durante décadas, as empresas preocuparam-se em preservar contratos, demonstrações financeiras, atas, projetos, procedimentos e documentos formais. Entretanto, grande parte do conhecimento efetivamente produzido em uma organização não está exclusivamente nesses registros.
Esse conhecimento também se encontra disperso nas interações cotidianas, especialmente:
Nos e-mails corporativos;
Nas reuniões virtuais ou hibridas, realizadas pelo Microsoft Teams, Zoom, Slack e outras plataformas de videochamadas;
Nas conversas realizadas pelo Microsoft Teams, whatsapp, Slack, Telegram, Sigma e outras plataformas de mensageria;
Nas perguntas formuladas entre colegas, nos problemas relatados, nas respostas encontradas, nas decisões discutidas e nas soluções que funcionaram ou fracassaram.
Base de Conhecimento Desestruturada Corporativa da Organização.
Enquanto uma norma estabelece o procedimento correto, os e-mails, as mensagens e as reuniões realizadas pelo Teams podem demonstrar como determinada equipe executou o procedimento estabelecido, quais dificuldades os procedimentos manualizados enfrentaram e em quais circunstâncias precisou realizar correções.
É justamente essa característica que torna uma base de dados dessa natureza especialmente interessante para os sistemas de inteligência artificial.
Não se pode perder de vista que os modelos de inteligência artificial dependem de dados para identificar e aprender padrões. Nesse contexto, existe uma diferença significativa entre alimentar um sistema exclusivamente com documentos formais e permitir que ele também aprenda a partir de registros de processos reais de trabalho, negociações técnicas e adaptações.
A mensageria permite preservar não apenas a resposta, mas também o caminho percorrido até que ela fosse alcançada.
Em outras palavras, esses registros contêm aquilo que poderíamos denominar histórico do raciocínio organizacional, um tipo de base de conhecimento.
Ademais, ao relacionar mensagens com documentos, indicadores, operações e seus respectivos resultados, torna-se possível construir bases de conhecimento muito mais sofisticadas.
Imagine, por exemplo, milhares de conversas sobre atrasos de voos associadas aos respectivos registros operacionais. Nesse cenário, a análise não precisaria limitar-se à pergunta: "O que ocorreu?". Poderia investigar também como as pessoas reagiram ao acontecimento, quais providências foram adotadas e quais delas produziram os melhores resultados.
Os dados tradicionais descrevem acontecimentos. Os dados de mensageria ajudam a reconstruir decisões e os processos que levaram à sua adoção.
Por essa razão, os arquivos de comunicação empresarial podem representar muito mais do que simples correspondências: constituem um amplo repositório de conhecimento tácito transformado em registros digitais.
No caso da Spirit Airlines, trata-se de uma organização que acumulou anos de experiências envolvendo operações aéreas, atendimento ao cliente, logística, recursos humanos, finanças, marketing, tecnologia e administração.
As notícias divulgadas apontam que justamente esse caráter operacional e empresarial torna o conjunto de dados atraente para o treinamento e o aperfeiçoamento de sistemas de inteligência artificial.
Anonimizar não significa simplesmente apagar nomes
Outro ponto que merece destaque é o esforço necessário para anonimizar informações dessa natureza.
A anonimização ou desidentificação de uma base de dados dessa magnitude representa um desafio técnico considerável.
Retirar o nome "João da Silva" de uma mensagem é relativamente simples. Muito mais complexo, entretanto, é eliminar todas as informações que, direta ou indiretamente, permitam identificar essa pessoa.
Uma conversa pode mencionar seu cargo, o aeroporto onde trabalha, sua escala de serviço, seu supervisor, determinado voo realizado em uma data específica e sua participação em algum acontecimento.
Mesmo sem a identificação nominal, a combinação desses elementos pode permitir que terceiros reconstruam sua identidade.
Esse fenômeno é conhecido como risco de reidentificação.
Convém ressaltar que existe um paradoxo nesse processo.
Se todo o contexto de uma conversa for eliminado, será possível ampliar a proteção da identidade das pessoas. Entretanto, essa medida também poderá comprometer parte do valor informacional dos registros destinados ao treinamento de sistemas de inteligência artificial.
O desafio tecnológico consiste, portanto, em retirar os elementos que identificam a pessoa sem eliminar a inteligência e o conhecimento presentes em sua experiência profissional.
Essa talvez seja uma das questões mais relevantes da governança de dados na era da inteligência artificial: conciliar a proteção da privacidade com a preservação do conhecimento organizacional.
A disputa pelos dados da Spirit Airlines também apresenta um indicativo econômico relevante.
Inicialmente, a Mercor ofereceu US$ 7,5 milhões. Posteriormente, a Google apresentou a proposta vencedora de US$ 10 milhões. Na sequência, a Micro1 apresentou uma oferta de US$ 12,5 milhões.
Esses valores demonstram o crescente interesse econômico por bases de dados empresariais e indicam que a informação acumulada pelas organizações pode representar um ativo de valor próprio, independentemente de seus bens físicos e materiais.
Durante muito tempo, ao avaliar seus ativos, uma empresa considerava principalmente imóveis, máquinas, marcas, patentes, contratos, softwares e carteiras de clientes.
A inteligência artificial, contudo, amplia essa perspectiva ao conferir maior relevância econômica a uma categoria de patrimônio que, embora já existisse, nem sempre recebia a devida atenção: a experiência acumulada digitalmente.
Não se pode olvidar que parte significativa dessa experiência está justamente nos sistemas de mensageria corporativa.
E-mails, conversas eletrônicas, atas digitais, chamados de atendimento, históricos de projetos e registros de decisões poderão constituir algumas das bases mais valiosas para o desenvolvimento e o aprimoramento dos sistemas internos de inteligência artificial.
Nesse sentido, a valorização dos ativos digitais não deve limitar-se à quantidade de informações armazenadas, mas considerar, sobretudo, sua capacidade de preservar experiências, contextualizar decisões e produzir conhecimento útil à organização.
No Brasil, assim como na maioria dos países civilizados, há vasta jurisprudência reconhecendo as comunicações corporativas como patrimônio das empresas. Não obstante, inúmeras ações judiciais continuam sendo ajuizadas com o intuito de reivindicar tais comunicações como se constituíssem propriedade particular dos empregados. Tal situação reflete uma distorção recorrente em uma sociedade que ainda confunde, reiteradamente, o que é privado, o que é corporativo e o que é público.
Mensageria é patrimônio na era da inteligência artificial
O conhecimento que antes poderia desaparecer quando um funcionário deixava uma empresa pode, atualmente, permanecer registrado por décadas nos ambientes digitais corporativos.
A inteligência artificial oferece a possibilidade de pesquisar, relacionar, organizar e reaproveitar essas experiências em uma escala que, até recentemente, seria difícil de alcançar.
Todavia, é necessário reconhecer que essa capacidade tecnológica também impõe responsabilidades relacionadas à privacidade, à segurança da informação, à confidencialidade e à utilização ética dos dados.
Por isso, a recomendação aos leitores é clara: não tratem a mensageria corporativa como simples conversa descartável.
Acima de tudo, comecem a avaliar como esse patrimônio informacional poderá ser utilizado de maneira responsável, estratégica e eficiente pelos sistemas de inteligência artificial.
O caso da Spirit Airlines pode representar um dos primeiros grandes exemplos de uma realidade que tende a tornar-se cada vez mais evidente: na era da inteligência artificial, a mensageria corporativa deixou de ser apenas um instrumento de comunicação e passou a representar patrimônio, base de conhecimento empresarial e memória operacional.
Afinal, o verdadeiro valor dos ativos digitais não está apenas na quantidade de mensagens e documentos armazenados, mas no conhecimento que eles preservam e na capacidade de transformar experiências acumuladas em inteligência para decisões futuras.
Dr. Mauro Souza
Advogado e Analista de Sistemas
Consultor em Privacidade e Compliance Digital
Consultor da Câmara de Consultoria da ACP-Pa
Membro da Comissão de Empreendedorismo, Inovação e Gestão da OAB-PA
Membro da Comissão Especial de Privacidade, Proteção de Dados e Inteligência Artificial OAB-SP
Membro da Comissão Especial de Tecnologia e Inovação OAB-SP
Articulista da Rádio CBN - Coluna Ponto Seguro.
Instagram @mauro.souzaadv
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