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Queda da Selic inaugura novo ciclo sob pressão do cenário global

O ciclo de queda de juros começou no Brasil. Pela primeira vez em quase dois anos, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu reduzir a Selic - a queda foi de 0,25 ponto percentual, passando de 15% para 14,75% ao ano. Mais do que o tamanho do corte, o que importa agora é o sinal que ele carrega.


Antes, o mercado estimava uma retração de 0,50 ponto percentual, mas, com a guerra no Oriente Médio, os especialistas reduziram as expectativas e apostaram em uma queda mais cautelosa. E essa mudança de previsão diz muito sobre o momento da economia global. 


Do ponto de vista mais técnico, a decisão do Banco Central é avaliada como coerente com o cenário atual. O conflito no Oriente Médio elevou o preço do petróleo para acima de 100 dólares o barril, que antes era comercializado a uma média de 60 a 70 dólares. E essa variação começou a pressionar os combustíveis e outros custos no Brasil.


Como a taxa de juros é o principal instrumento do Banco Central para controlar a inflação e o cenário ficou mais desafiador, a reação da instituição foi de proteção. O cenário externo voltou a ditar o ritmo das decisões internas.


Mas como interpretar esse movimento na prática? Para entender o que está por trás do comunicado do Banco Central, conversei com o economista Nélio Bordalo Filho, que é também consultor de empresas e conselheiro do Conselho Regional de Economia (Corecon) do Pará e Amapá.


Para ele, o fato de o Copom ter optado pela redução de 0,25 ponto indica que o Banco Central quer testar o comportamento da inflação antes de acelerar o ritmo. “Não foi um corte tímido, foi um corte prudente e certamente com análise de cenários e impactos na economia brasileira levando em consideração o conflito no Oriente Médio”, disse. A leitura reforça a ideia de que o Banco Central está menos preocupado em acelerar e mais atento a evitar riscos.


A guerra é hoje, segundo ele, o principal fator de incerteza para a inflação brasileira. A alta do petróleo provocada pelo conflito no Oriente Médio já começou a pressionar combustíveis e, consequentemente, custos de transporte, e isso costuma se espalhar rapidamente pela economia.


Os efeitos já começam a aparecer nas projeções. Não à toa, o economista detalha que o próprio Banco Central revisou para cima a estimativa de inflação para 2026, justamente por causa do cenário externo mais instável. “Isso significa que os próximos cortes de juros tendem a ser graduais. Se o petróleo continuar pressionado, o ritmo de queda da Selic pode ser mais lento do que o mercado gostaria”, adianta Nélio.


Em seu comunicado, o Copom optou por não indicar novos cortes para as próximas reuniões, dizendo que, no cenário atual, "os passos futuros do processo de calibração da taxa básica de juros possam incorporar novas informações que aumentem a clareza sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio, assim como seus efeitos diretos e indiretos sobre o nível de preços ao longo do tempo".


Traduzindo: o Banco Central prefere esperar mais dados antes de definir os próximos passos. O recado é simples: o ciclo de quedas começou, mas será lento, pois a inflação ainda exige cautela. O economista Nélio Bordalo explica que isso significa crédito ainda caro por um tempo, consumo reagindo devagar e retomada da atividade econômica acontecendo de forma gradual. 


Quando se olha para a economia real, os efeitos são graduais. Para as empresas, o cenário melhora, mas não muda de uma vez. E para o investidor, a mensagem é de transição, o que significa redução gradual no custo do crédito, mas ainda sem espaço para uma retomada rápida dos investimentos. 


“Para o mercado financeiro, o cenário também é de transição, pois os juros começaram a cair, mas continuam em um nível ainda muito alto para os padrões brasileiros”, explica.


Mas é no bolso do brasileiro que essa mudança é mais esperada - e também mais lenta. Para a população, o corte da Selic não muda imediatamente o dia a dia e nem a vida de quem usa cartão de crédito, financiamento ou empréstimo. A queda demora alguns meses para chegar ao bolso das famílias, porque os bancos reduzem os juros de forma gradual.


A Selic começou a cair. Mas, desta vez, o alívio não vem rápido - nem para o mercado, nem para o consumidor.


Elisa Vaz é jornalista graduada na UFPA, tem anos de experiência em cobertura política e econômica e formação em Economia pela Fipe.

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