Trabalhar menos, produzir mais: o desafio econômico do fim da escala 6x1
- Elisa Vaz

- Mar 1
- 4 min read
O fim da escala 6x1 tem sido um dos principais debates econômicos no Brasil atualmente. O tema ganhou tração sobretudo com a aproximação do calendário eleitoral, quando pautas de forte apelo popular tendem a ocupar o centro da agenda política.
Às vésperas das eleições majoritárias, diversos projetos foram criados ou desengavetados tanto no Senado Federal como na Câmara dos Deputados, e até o governo federal tem estampado essa como sua maior prioridade para 2026.
Em todas as propostas debatidas há um ponto em comum: a redução do teto de trabalho para 36 horas semanais e a eliminação da escala 6x1, que seria substituída por um esquema de duas ou três folgas por semana.
Quase 33 milhões de pessoas podem ser beneficiadas pela mudança. Segundo um estudo recente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), esse é o número de brasileiros que têm contratos de 44 horas ou mais por semana, 75% dos 44 milhões de trabalhadores com carteira assinada no Brasil.
Pesquisadores e instituições já estudam a fundo o impacto econômico que pode ser causado pela medida, que em breve deve chegar ao Plenário do Congresso Nacional para ser apreciada por deputados federais e senadores. A pergunta central é: quem absorverá o custo dessa mudança: o Estado, as empresas ou o consumidor final?
O Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) calculou que o Produto Interno Bruto (PIB) do país pode ficar 2,6% menor caso a jornada caia para 40 horas por semana. Com o teto em 36 horas, a retração seria de 7,4%.
A lógica por trás dessas projeções é direta: menos horas trabalhadas significariam, em tese, menor volume de produção, caso a produtividade por hora não aumente na mesma proporção. Quanto ao custo médio do trabalho com carteira assinada, o Ipea estima uma alta de 17% nessa configuração, o que pode ser desafiador para as empresas.
Para o economista Douglas Alencar, ouvido pela coluna, essas projeções são superestimadas. “As estimativas mais realistas disponíveis indicam um aumento médio de custos para as empresas em torno de 3%, o que é relativamente modesto e similar a ajustes já observados em outras mudanças trabalhistas no passado”, disse.
No caso específico do fim da escala 6x1, ele não acredita que haverá uma ruptura estrutural na capacidade produtiva do país e considera que os ganhos são relevantes do ponto de vista social, já que a redução da jornada tende a melhorar a qualidade de vida, reduzir o estresse e permitir maior convivência familiar, o que, consequentemente, pode contribuir para melhores resultados educacionais e para o desenvolvimento de habilidades no longo prazo.
“Além disso, há um ponto econômico importante: trabalhadores menos sobrecarregados tendem a ser mais produtivos. Portanto, no médio e longo prazo, é possível que parte, ou até a totalidade, do eventual aumento de custos seja compensada por ganhos de produtividade. A experiência histórica mostra que reduções moderadas de jornada não necessariamente implicam aumento de desemprego ou queda significativa da atividade econômica”, avaliou o economista.
Ainda na esteira dos possíveis impactos negativos, uma pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) alerta que, para se adaptar aos novos limites, os setores de indústria, comércio e serviços terão contas adicionais de, respectivamente, R$ 87 bilhões, R$ 122 bilhões e R$ 235 bilhões por ano, considerando a redução para uma jornada de 40 horas.
Representantes do setor do transporte, que funciona de domingo a domingo, já adiantaram que repassarão os custos aos consumidores, o que pode gerar inflação. Em segmentos intensivos em mão de obra e com margens apertadas, como comércio e serviços, o espaço para absorver custos adicionais costuma ser limitado, o que torna o debate ainda mais sensível.
Na avaliação de Douglas Alencar, não há razão, porém, para esperar um impacto inflacionário relevante. “Trata-se de um choque de custo relativamente pequeno quando comparado a outras variações que a economia brasileira já absorveu, como reajustes do salário mínimo ou oscilações cambiais. Além disso, o repasse para os preços não é automático. Ele depende da estrutura de mercado e do grau de concorrência em cada setor”, adiantou.
Independentemente do tamanho do impacto imediato, o debate expõe uma fragilidade histórica da economia brasileira: a baixa produtividade. Embora o aumento estimado de custos seja relativamente pequeno, Douglas não descarta pensar em medidas que reforcem a capacidade produtiva da economia. Para ele, uma agenda importante seria a redução de custos estruturais de produção, especialmente no que diz respeito à carga tributária incidente sobre o setor produtivo e à simplificação do sistema tributário.
Além disso, o ponto central para a competitividade de longo prazo é a produtividade, de acordo com ele, o que passa por investimento em qualificação da força de trabalho, ampliação do acesso à educação de qualidade e políticas de treinamento contínuo. O economista enxerga que, quanto maior o nível educacional e a capacitação técnica dos trabalhadores, maior tende a ser a produtividade, o que compensa eventuais elevações de custo por hora trabalhada.
O debate sobre o fim da escala 6x1 expõe o dilema permanente da economia brasileira: como avançar socialmente sem comprometer a competitividade. Reduzir horas pode significar mais qualidade de vida. Mas, sem enfrentar gargalos estruturais, como produtividade baixa, sistema tributário complexo e custo elevado de produzir no país, qualquer ganho social corre o risco de virar pressão inflacionária ou retração econômica.
No fim das contas, a discussão é sobre qual modelo de desenvolvimento o Brasil pretende adotar e quem acabará pagando a conta.
Elisa Vaz é jornalista graduada na UFPA, tem anos de experiência em cobertura política e econômica e formação em Economia pela Fipe.



