Três estrelas Michelin no Brasil: um novo patamar para a gastronomia
- ari tomaz

- há 34 minutos
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O Guia MICHELIN Rio de Janeiro & São Paulo 2026 altera a escala de leitura da gastronomia brasileira ao reconhecer, pela primeira vez, dois restaurantes com três estrelas: Evvai e Tuju, ambos em São Paulo. O feito coloca o país em um patamar até então inédito na América Latina e reorganiza a forma como se observa a alta cozinha produzida aqui.
No Evvai, Luiz Filipe Souza constrói uma cozinha centrada no diálogo entre Brasil e Itália, sem depender de narrativa excessiva. O trabalho se apoia em técnica precisa e em uma construção de pratos que combina referências de origem italiana com ingredientes brasileiros tratados com rigor e intenção. As cartas que acompanham o menu funcionam como extensão da experiência, mas o que sustenta o reconhecimento é a consistência da execução ao longo do percurso degustativo.
No Tuju, Ivan Ralston desenvolve uma proposta estruturada como experiência contínua. O restaurante opera em camadas: espaço, serviço e menu são pensados de forma integrada. A cozinha parte de um mapeamento rigoroso da sazonalidade dos ingredientes, com forte atenção ao comportamento do clima e às variações de colheita. O resultado é um menu que muda ao longo do ano e se organiza a partir de ciclos naturais, com uma lógica de pesquisa aplicada ao prato.
Entre esses dois pontos, o guia mantém referências já estabelecidas. D.O.M., Lasai e Oro seguem com duas estrelas, sustentando uma presença contínua no circuito de alta gastronomia. São casas que representam permanência, com estilos distintos, mas com coerência interna já consolidada.
Na camada seguinte, os Bib Gourmand e os restaurantes recomendados ampliam a leitura para uma gastronomia mais cotidiana. Jiquitaia, Manioca JK, Bar da Dona Onça, Makoto San e outros nomes mostram uma cidade em funcionamento, onde a cozinha não está restrita à excepcionalidade, mas inserida no dia a dia, com diferentes níveis de ambição e acesso.
O recorte geográfico segue concentrado no eixo Rio/ São Paulo. Fora dele, o Norte e o Nordeste permanecem pouco integrados a essa leitura, embora reúnam uma das bases culinárias mais consistentes do país. Tucupi, dendê, peixes de rio, carne de sol, farinhas e técnicas tradicionais de preparo formam sistemas próprios de cozinha, com coerência, técnica e profundidade histórica. Uma abertura gradual desse olhar, com a inclusão de outras cidades brasileiras, certamente revelaria restaurantes capazes de se encaixar com naturalidade em categorias como Bib Gourmand e na seleção de recomendados, ampliando o mapa já em movimento da gastronomia no país.



